O agronegócio brasileiro escreveu mais um capítulo histórico em 2026. Segundo dados do CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP) com base no MDIC/Siscomex, as exportações do setor atingiram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026 — crescimento de 6,2% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior valor já registrado para um semestre na história do agro brasileiro.
O resultado surpreende especialmente pela consistência: foi alcançado mesmo diante de um cenário adverso marcado por queda nos preços internacionais de algumas commodities como açúcar e café, aumento no custo do frete internacional com interrupção do tráfego de navios no Estreito de Ormuz, e retração de 25% na receita proveniente dos Estados Unidos — afetada pela política tarifária americana. O crescimento do volume exportado, de 7,5%, compensou a leve queda de 1,2% no preço médio em dólar.
O que puxou o recorde — os produtos que brilharam
O desempenho do semestre foi construído sobre avanços expressivos nos volumes de exportação de praticamente toda a cadeia do agronegócio brasileiro:
| Produto | Crescimento de volume | Destaque |
|---|---|---|
| Óleo de soja | +30% | Maior crescimento do semestre |
| Milho | +22% | Demanda asiática aquecida |
| Algodão | +21% | Bahia lidera produção nacional |
| Carne bovina | +15% | China e EAU principais destinos |
| Carne de frango | +14% | Líder mundial em exportação |
| Farelo de soja | +11% | Irã cresceu 571% — novo destino |
| Carne suína | +10% | Mercado asiático em expansão |
| Soja em grão | +7,1% | 69,6 mi ton — recorde histórico |
A soja em grãos manteve a liderança entre os produtos exportados. No primeiro semestre de 2026, os embarques atingiram 69,6 milhões de toneladas — crescimento de 7,1% em relação ao mesmo período do ano anterior e o maior volume já registrado para o período. O farelo de soja movimentou US$ 4,6 bilhões, alta de 14,8%, com recorde de 12,7 milhões de toneladas. Um dado que chamou atenção: o Irã foi o mercado que apresentou o maior crescimento nas compras do farelo brasileiro, com avanço impressionante de 571,3% sobre o primeiro semestre de 2025 — reflexo do reposicionamento geopolítico do comércio de commodities.
A China — parceira indispensável e risco de concentração
A China permaneceu como principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro, respondendo por 35,1% de todas as exportações do setor, com compras de US$ 30,5 bilhões — alta de 10,5% em relação ao primeiro semestre de 2025. Esse resultado reflete diretamente o efeito das tarifas americanas sobre produtos agrícolas dos EUA: com a soja americana taxada em 10% a mais que a brasileira no mercado chinês, o Brasil se tornou o fornecedor preferencial de proteína vegetal para a maior nação consumidora do planeta.
União Europeia e Estados Unidos aparecem na sequência entre os principais mercados compradores — embora os EUA tenham reduzido suas compras em 25% em valor, reflexo da política tarifária americana que afetou reciprocamente as exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
O economista-chefe do CEPEA, Dr. Rodrigo Lanna Franco da Silveira, contextualiza: "O desempenho reforça a resiliência e a competitividade do agronegócio brasileiro no comércio internacional. O setor mostrou capacidade de redirecionar fluxos comerciais rapidamente diante de barreiras em mercados tradicionais — especialmente para a Ásia e para países do Oriente Médio que aumentaram suas compras de proteínas brasileiras."
Os produtos que puxaram para baixo — onde houve queda
Nem tudo foi crescimento no semestre. Três produtos apresentaram queda expressiva na receita:
- Açúcar bruto: queda de 24,5% na receita — resultado da redução de 21,9% no preço médio internacional combinada com leve queda no volume embarcado. O açúcar brasileiro pagou o preço da supersafra de cana-de-açúcar que pressionou os preços globais para baixo.
- Café verde: quedas nos principais mercados consumidores refletem o paradoxo do café: apesar dos preços recordes para os cafeicultores brasileiros (saca chegou a R$ 1.748 em setembro), o volume exportado foi afetado por ajustes nas posições dos importadores que compraram antecipadamente em 2025.
- Celulose: recuou 4% no valor exportado pela menor quantidade comercializada, embora os preços médios tenham aumentado.
Gargalos que ameaçam o crescimento futuro
O recorde de exportações, porém, não esconde gargalos estruturais que reduzem a competitividade do agronegócio brasileiro. Um relatório da IBANDRN divulgado nesta semana aponta que, apesar da safra recorde de cerca de 360 milhões de toneladas de grãos em 2025/26, o avanço da produtividade nas propriedades não foi acompanhado na mesma velocidade fora delas:
- Juros altos: com a Selic em 14,25% em junho de 2026, o custo do crédito rural convencional atingiu 11,9% ao ano para pessoa física e até 27% para pessoa jurídica — tornando o financiamento da produção extremamente caro para quem não acessa as linhas do Plano Safra
- Falta de armazenagem: parte dos produtores é forçada a vender no pico da colheita — quando os preços estão pressionados pela maior oferta — por não ter silos ou armazéns disponíveis
- Custo do transporte: o frete rodoviário ainda representa a maior parte do escoamento da produção, com custo muito acima do que seria com uma malha ferroviária e hidroviária mais desenvolvida
- Endividamento crescente: a inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu 7,4% a 7,6% em meses recentes — o maior patamar da história recente — e o crédito problemático (atrasos, renegociações e prorrogações) superou R$ 186 bilhões
O que a MP do endividamento rural pretende resolver
Em resposta à crise de endividamento, o governo federal editou a MP (Medida Provisória) do endividamento rural — mas produtores e entidades relatam dificuldades na implementação. Dados da Agência FPA apontam que produtores adimplentes (por terem alongado suas dívidas) enfrentam crédito suspenso pelos bancos, enquanto inadimplentes esbarram em problemas de laudos que as instituições financeiras não têm aceito retroativamente.
"Uma pessoa fica indignada com o sistema hoje, com o sistema governamental por não dar amparo a uma cadeia que realmente levanta o PIB e que sustenta a economia do nosso país", resumiu o presidente do Sindicato Rural de Guamiranga em declaração à Agência FPA.
O que esperar para o segundo semestre de 2026
As perspectivas para o segundo semestre de 2026 são mistas. Por um lado, a safra recorde de grãos garante volume exportável. Por outro, o El Niño previsto para ganhar força a partir de outubro pode impactar o plantio da safra 2026/27. Os analistas do CEPEA projetam que a oferta de produtos agropecuários deve permanecer em bons níveis, mas alertam para o risco do aumento no preço do frete — com a crise no Estreito de Ormuz — e para as incertezas geopolíticas que podem redirecionar fluxos comerciais de forma abrupta.
Para o produtor rural, a mensagem dos dados é clara: o agronegócio brasileiro está produzindo e exportando em volume recorde, mas as margens estão comprimidas por juros altos, custo logístico elevado e endividamento acumulado. Quem conseguir reduzir o custo de produção e garantir acesso a crédito competitivo estará na melhor posição para aproveitar os próximos ciclos de alta.
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Fontes e referências
- CEPEA/Esalq-USP — Exportações do Agronegócio Brasileiro 1º Semestre 2026. Set/2026.
- MAPA — Balanço das Exportações do Agronegócio Brasileiro. Jul/2026.
- CNN Brasil — Agro bate recorde de exportação no semestre. Jul/2026.
- BPMoney — Exportações do agro batem recorde de US$ 87 bilhões. Jul/2026.
- Portal Campo Vivo — Apesar das tensões geopolíticas, faturamento com vendas externas do agro segue crescendo. Set/2026.
- IBANDRN — Safra recorde expõe gargalos que tiram competitividade do agro brasileiro. Set/2026.