O bicho-mineiro do café, Leucoptera coffeella (Guérin-Méneville, 1842), é a praga de inseto mais importante da cafeicultura brasileira em termos de área infestada e perdas anuais. Estudos da Embrapa Café estimam que, sem controle, pode reduzir a produtividade em 20 a 40% e comprometer a produção do ano seguinte ao causar desfolha prematura antes da maturação dos frutos (REIS & SOUZA, 2002).
Sistemática e morfologia
Leucoptera coffeella pertence à Ordem Lepidoptera, Família Lyonetiidae. É uma mariposa minúscula — adultos medem apenas 3 a 4 mm de comprimento, com asas prateadas e manchas douradas características.
O ciclo de vida completo compreende quatro estágios:
| Estágio | Duração | Local | Características |
|---|---|---|---|
| Ovo | 5–10 dias | Face superior das folhas | Oval, 0,3mm, transparente |
| Larva | 15–30 dias | Interior do mesófilo foliar | 4 ínstares; causa a mina |
| Pupa | 10–20 dias | Face inferior das folhas ou solo | Casulo em forma de H |
| Adulto | 7–14 dias | Folhas e ramos | Ativo ao entardecer |
O ciclo completo dura de 37 a 74 dias dependendo da temperatura, com 8 a 10 gerações por ano nas regiões de clima quente do Brasil (MATIELLO et al., 2016).
Como a larva causa o dano
A fêmea adulta oviposita na face superior das folhas. A larva eclodida penetra diretamente no mesófilo, a camada de células fotossintéticas da folha, onde se alimenta construindo galerias características — as "minas". À medida que a larva cresce, a mina se expande formando manchas necróticas de forma irregular, com bordas marrons e centro acinzentado.
Quando o ataque é severo, múltiplas minas coalescem, destruindo toda a área fotossintética da folha. A folha então enrolada cai prematuramente. A desfolha intensa durante a fase de enchimento dos grãos é especialmente danosa — reduz a produção de fotoassimilados quando a demanda pelos frutos em desenvolvimento é máxima.
Fatores que favorecem as populações do bicho-mineiro
- Período seco: o bicho-mineiro tem populações máximas durante a estação seca (abril a setembro), quando a ausência de chuvas favorece a sobrevivência dos ovos e pupas
- Alta temperatura: acima de 24°C o desenvolvimento é acelerado — mais gerações por ano
- Lavouras ensolaradas: pleno sol favorece o bicho-mineiro; lavouras com sombreamento natural têm populações menores
- Eliminação de inimigos naturais: uso excessivo de inseticidas de largo espectro elimina predadores e parasitoides
Inimigos naturais — a base do controle biológico
Em lavouras com uso racional de inseticidas, os inimigos naturais são responsáveis por 40 a 70% da mortalidade do bicho-mineiro. Os principais são:
- Stiropius coffeellae e Closterocerus coffeellae: microhimenópteros parasitoides das larvas. Em estudos do UFLA, o parasitismo por essas espécies atingiu 45% em lavouras orgânicas.
- Isyndus obscurus e Zelus longipes: percevejos predadores que atacam lagartas e adultos.
- Fungos entomopatogênicos: Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae causam epizootias naturais em períodos úmidos.
Monitoramento — como calcular o nível de dano econômico
O nível de controle para o bicho-mineiro recomendado pela Embrapa Café é:
- Período seco: controlar quando 30% ou mais das folhas amostradas apresentarem minas ativas (com larvas vivas)
- Período chuvoso: controlar quando 40% ou mais das folhas apresentarem minas
Para amostragem: colete 5 folhas do 3º par de ramos produtivos de 20 plantas/talhão. Verifique a presença de minas ativas (com larva viva no interior — aparece como sombra escura quando a folha é observada contra a luz).
Controle químico — produtos com maior eficiência
Os inseticidas mais eficientes e menos agressivos aos inimigos naturais são:
- Imidacloprido (neonicotinoide): sistêmico, aplicação via solo ou foliar. Alta eficiência, mas com restrições em áreas com alta atividade de polinizadores.
- Chlorantraniliprole (diamida): seletivo para lepidópteros, baixo impacto em inimigos naturais. Recomendado para MIP.
- Espinosade (spinosina): derivado de bactéria, seletivo, compatível com controle biológico.
- Profenofós + cipermetrina: amplo espectro, usar apenas quando a população for muito alta e os inimigos naturais já estiverem comprometidos.
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Referências bibliográficas
- REIS, P.R.; SOUZA, J.C. Pragas do cafeeiro. In: BORÉM, A. (Ed.). Café: do plantio à colheita. UFV, Viçosa, 2002.
- MATIELLO, J.B. et al. Cultura do café no Brasil: Novo manual de recomendações. MAPA/PROCAFÉ, Rio de Janeiro, 2016.
- SOUZA, J.C.; REIS, P.R. Bicho-mineiro do cafeeiro: biologia, danos e manejo integrado. Belo Horizonte: EPAMIG, 1997.