O cafeicultor brasileiro raramente tem tido motivo para sorrir com os preços nos últimos anos — as oscilações do mercado internacional e os custos de produção crescentes comprimiram as margens por temporadas seguidas. Setembro de 2026 trouxe uma exceção notável: o indicador CEPEA/ESALQ do café arábica (tipo 6, bebida dura para melhor, posto São Paulo) atingiu R$ 1.748,37 por saca de 60 kg no dia 2 de setembro de 2026 — um dos maiores níveis já registrados na série histórica do indicador.
Para ter dimensão do que esse número representa: em setembro de 2023, a mesma saca era negociada a cerca de R$ 850. Em dois anos, o preço do café mais que dobrou. Um cafeicultor com 10 hectares produzindo 30 sacas por hectare (300 sacas no total) passou de uma receita bruta de R$ 255.000 para R$ 524.511 — sem mudança alguma na produção. Apenas o preço se moveu.
Por que o café subiu tanto — os fatores reais
1. El Niño e a incerteza sobre a floração
O fator mais imediato e mais discusso no mercado é a previsão do El Niño para a safra 2026/27. Setembro e outubro são os meses de floração do cafeeiro arábica nas regiões produtoras do Brasil — especialmente em Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e São Paulo. Uma floração irregular, provocada por distribuição inadequada de chuvas nesse período crítico, pode comprometer severamente a produção do próximo ciclo.
O mercado internacional está precificando esse risco. Analistas de commodities do mercado financeiro em Nova York e Londres estão monitorando os dados de chuva nas regiões produtoras brasileiras em tempo real, e qualquer sinal de irregularidade climática nas próximas semanas pode provocar novos picos nos preços.
2. A bienalidade — ano de baixa produção em 2026
O cafeeiro arábica tem característica de bienalidade: anos de alta produção se alternam com anos de produção menor, em função do esgotamento das reservas de carboidratos da planta após um ciclo produtivo intenso. A safra 2025/26 foi de alta produção — e portanto 2026/27 tende a ser o ano de baixa produção na maioria das lavouras sem manejo específico para reduzir a bienalidade.
A combinação de ano de baixa produção esperada para 2026/27 com incerteza climática do El Niño criou o ambiente perfeito para a alta de preços: menos oferta esperada com mais incerteza sobre o que virá.
3. Demanda global em crescimento acelerado
O consumo mundial de café cresceu aproximadamente 2,5% ao ano nos últimos cinco anos, impulsionado especialmente pela expansão do mercado asiático. China, Coreia do Sul, Vietnã e outros países do Sudeste Asiático estão entre os mercados que mais crescem em consumo de café — e a preferência é, crescentemente, pelo café arábica brasileiro de alta qualidade.
4. Queda nas exportações de café verde do Brasil
Os dados do MAPA revelam um paradoxo: apesar dos preços recordes, as exportações de café verde do Brasil caíram nos primeiros seis meses de 2026. Parte dos cafeicultores e tradings reteve estoque apostando na continuidade da alta; outra parte dos compradores internacionais havia feito compras antecipadas em 2025 e reduziu as aquisições no primeiro semestre de 2026. O resultado foi menos café saindo para o exterior, o que reduziu a oferta disponível no mercado internacional e contribuiu para sustentar os preços altos.
Oportunidade ou armadilha — o que o cafeicultor deve fazer
Um preço tão alto quanto R$ 1.748/saca cria tanto oportunidade quanto armadilha, dependendo de como o cafeicultor posiciona sua produção.
O que aproveitar
- Vender parte da produção a preço fixo agora: travar 30 a 50% da produção estimada de 2026/27 a preços próximos dos atuais (via contrato a termo com cooperativa ou trading) é uma forma de garantir a margem mesmo que os preços caiam no momento da colheita
- Investir na qualidade: o diferencial de preço entre café commodity e café especial (acima de 80 pontos SCA) é de 20 a 60% sobre o preço base. Com o preço base já alto, a premiação pela qualidade representa uma diferença ainda maior em termos absolutos
- Pagar dívidas caras: o resultado financeiro de uma safra com preço de R$ 1.748/saca é a oportunidade de quitar dívidas com juros acima de 12% ao ano e reduzir o custo financeiro da propriedade para os próximos ciclos
O que evitar
- Expandir a área em cima do preço alto: o cafeeiro leva de 3 a 4 anos para entrar em plena produção — quando os novos cafezais produzirem, o preço pode ser completamente diferente. Expansão de área deve ser decisão de longo prazo, não reação ao preço de momento
- Não proteger o preço por "achar que vai subir mais": o mercado de café é extremamente volátil. Uma notícia climática favorável no Brasil, ou um relatório de estoques mais alto que o esperado, pode derrubar o preço em 15 a 20% em poucos dias
- Cortar investimentos em manutenção: o café precisa de adubação e tratamento fitossanitário contínuos. O erro mais comum em anos de preço alto é o cafeicultor que reduz os custos de manutenção achando que a margem é confortável — e compromete a produção dos próximos ciclos
Perspectivas para os próximos meses
O mercado de café para os próximos meses dependerá basicamente de três variáveis:
- Comportamento das chuvas em setembro e outubro nas regiões produtoras: se as chuvas chegarem na época certa e em quantidade adequada, a floração será boa e os preços podem ceder. Se houver irregularidade, os preços tendem a se manter elevados ou subir mais.
- Relatórios de estoque da ICO (Organização Internacional do Café): dados de estoque global abaixo das expectativas sustentam os preços; acima das expectativas, pressionam para baixo.
- Câmbio: o café é precificado em dólar no mercado internacional. Uma eventual apreciação do real (dólar mais barato) reduziria os preços em reais mesmo sem mudança no preço em dólar em Chicago.
O café da Bahia em contexto especial
A Bahia tem três regiões cafeeiras com características distintas: a Chapada Diamantina (altitudes entre 800 e 1.200 metros, café arábica de qualidade superior), o Cerrado Ocidental Baiano (grande escala, irrigado, soja e café convivendo na paisagem) e a região de Vitória da Conquista (polo de café robusta/conilon).
Com o El Niño previsto para afetar especialmente o Nordeste — com redução de chuvas durante a floração — os cafeeiros da Bahia, especialmente os de sequeiro na Chapada Diamantina, estão no epicentro do risco. A irrigação disponível é o fator que vai definir se a floração de 2026 será uniforme ou irregular nas lavouras baianas.
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Fontes e referências
- CEPEA/ESALQ-USP — Indicador do Café Arábica. Set/2026.
- MAPA — Exportações do Agronegócio Brasileiro 1º Semestre 2026. Jul/2026.
- Forbes Agro — AgroRound: dados do mercado cafeeiro. Set/2026.
- Canal Rural — Mercado do café mantém atenção ao clima e à preparação da safra 2027. Set/2026.
- Embrapa Café — Bienalidade do cafeeiro: como reduzir a alternância de produção. 2024.