A cercosporiose do cafeeiro, causada pelo fungo Cercospora coffeicola Berkeley & Cooke, é a segunda doença fúngica mais importante do café no Brasil, superada apenas pela ferrugem. Diferentemente da ferrugem, que afeta principalmente as folhas, a cercosporiose atinge tanto as folhas quanto os frutos — onde causa o temido "CBD" (Coffee Berry Disease) ou "mancha de olho pardo nos frutos", que pode comprometer significativamente a qualidade da bebida.
Sintomatologia — como identificar a cercosporiose
Sintomas foliares
Nas folhas, as lesões têm aspecto característico de "olho pardo" ou "mancha olho de pombo":
- Centro circular acinzentado ou esbranquiçado
- Halo marrom-avermelhado ao redor do centro
- Diâmetro de 0,5 a 1,5 cm
- Quando as lesões coalescam, a folha amarela e cai prematuramente
As lesões aparecem primeiro nas folhas mais novas (ao contrário da ferrugem, que começa nas mais velhas) e em plantas com deficiência nutricional ou estresse hídrico.
Sintomas nos frutos
Nos frutos verdes, as lesões são circulares, deprimidas, de cor parda. À medida que o fruto amadurece, a lesão escurece e pode penetrar até o endosperma (grão), causando o grão "preto" ou "ardido" — um dos defeitos mais penalizados na classificação do café.
Epidemiologia — condições que favorecem a doença
A cercosporiose tem um perfil epidemiológico diferente da ferrugem:
- Temperatura: desenvolve-se bem em ampla faixa, de 15 a 30°C, com ótimo entre 22 e 25°C
- Umidade: favorecida por períodos com alternância de chuva e sol — o orvalho noturno frequente é especialmente favorável
- Estresse nutricional: a deficiência de potássio e zinco aumenta significativamente a susceptibilidade. Pesquisas do UFLA demonstraram que plantas com K foliar abaixo de 15 g/kg têm incidência de cercosporiose 40% maior que plantas bem nutridas
- Frutos maduros e secos: os frutos no final da maturação são muito susceptíveis — o período entre maturação e colheita deve ser minimizado
Ciclo do patógeno
Cercospora coffeicola produz conídios (esporos assexuais) nas lesões, que são dispersos por respingos de chuva, vento e insetos. O fungo sobrevive nos restos culturais (folhas e frutos caídos) e nas lesões de plantas doentes. Ao contrário da ferrugem, o fungo consegue infectar tecido morto e sobreviver saprotroficamente no solo por períodos longos.
Manejo integrado da cercosporiose
Medidas preventivas não-químicas
- Nutrição equilibrada: manter K e Zn foliares nos níveis adequados é a medida preventiva mais eficiente
- Remoção de restos culturais: folhas e frutos caídos com lesões mantêm o inóculo na lavoura
- Repasse pós-colheita: coletar todos os frutos remanescentes nas plantas e no chão elimina fonte de inóculo para a próxima safra
- Evitar excesso de sombreamento: alta umidade em lavouras super-adensadas favorece a doença
Controle químico
Os fungicidas mais eficientes para cercosporiose, com base nos ensaios do MAPA e da Embrapa:
| Fungicida | Grupo | Modo de ação | Época de aplicação |
|---|---|---|---|
| Mancozebe | Ditiocarbamato | Contato multissítio | Preventivo |
| Hidróxido de cobre | Cúprico | Contato | Preventivo |
| Tebuconazol | Triazol | Sistêmico — ergosterol | Preventivo/curativo |
| Flutriafol + carbendazim | Triazol + benzimidazol | Duplo sistêmico | Curativo |
O calendário de aplicação deve ser integrado ao controle da ferrugem — na maioria dos casos, o mesmo fungicida usado para ferrugem também controla a cercosporiose.
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Referências bibliográficas
- CHALFOUN, S.M. Doenças do cafeeiro — identificação, diagnose, epidemiologia e controle. EPAMIG/CECD, Lavras, 2010.
- RODRIGUES, L.M.R. et al. Cercosporiose do cafeeiro: epidemiologia e controle. Circular Técnica EPAMIG, Belo Horizonte, 2009.
- ZAMBOLIM, L. et al. O que os engenheiros agrônomos devem saber para orientar o uso de fungicidas. UFV, Viçosa, 2002.