A cercosporiose, também conhecida como mancha-de-olho-pardo, é uma das doenças mais importantes da cafeicultura brasileira. Causada pelo fungo Cercospora coffeicola, a doença pode afetar folhas e frutos, provocando desfolha, redução da área fotossintética e prejuízos à produtividade e à qualidade do café.

Sua ocorrência está diretamente relacionada às condições climáticas, ao estado nutricional das plantas e ao manejo realizado na lavoura. Por isso, o controle deve ser baseado principalmente no manejo integrado, evitando depender exclusivamente de aplicações de fungicidas.

Como identificar a cercosporiose?

Nas folhas, os sintomas geralmente aparecem como manchas circulares, de coloração marrom a castanho-clara, frequentemente apresentando um centro mais claro e um halo amarelado ao redor. Em condições favoráveis, o número de lesões pode aumentar rapidamente, provocando queda prematura das folhas.



Nos frutos, a doença pode causar lesões deprimidas e escuras. Quando ocorre próximo à maturação, pode comprometer a qualidade dos grãos e favorecer problemas relacionados à bebida.

Quais condições favorecem a doença?

A cercosporiose tende a apresentar maior intensidade quando existe uma combinação de umidade, temperaturas favoráveis, baixa luminosidade e plantas submetidas a algum tipo de estresse.

Algumas situações podem aumentar a predisposição da lavoura:

  • Deficiência ou desequilíbrio nutricional;
  • Baixa disponibilidade de nitrogênio;
  • Estresse hídrico;
  • Lavouras com elevada carga de frutos;
  • Excesso de sombreamento;
  • Plantas com baixa área foliar;
  • Solos com baixa fertilidade;
  • Condições de elevada umidade e molhamento foliar.

Por isso, o controle da cercosporiose não deve ser tratado apenas como uma questão de aplicação de fungicidas.

Nutrição e cercosporiose

O equilíbrio nutricional é uma das principais ferramentas preventivas. Plantas bem nutridas apresentam maior capacidade de manter folhas e suportar períodos de estresse.

Entretanto, é importante destacar que adubação não substitui o controle fitossanitário. O manejo deve ser realizado a partir da análise de solo e, quando possível, da análise foliar.

O fornecimento equilibrado de nitrogênio, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes contribui para a manutenção do vigor das plantas e para uma maior tolerância aos estresses.

Excessos também devem ser evitados. O objetivo não é simplesmente aumentar a quantidade de fertilizante, mas corrigir as limitações nutricionais da lavoura.

Manejo da cercosporiose

O manejo eficiente deve combinar diferentes estratégias.

1. Monitoramento

O primeiro passo é realizar inspeções periódicas na lavoura, principalmente durante períodos de maior umidade e quando as plantas apresentam maior carga de frutos.

O monitoramento permite identificar os primeiros sintomas e tomar decisões antes que a doença alcance níveis elevados.

2. Manejo nutricional

A correção da fertilidade do solo deve ser baseada na análise química. É importante manter uma nutrição equilibrada durante todo o ciclo produtivo, evitando tanto deficiências quanto excessos.

3. Manejo da lavoura

A arquitetura das plantas também influencia o microclima dentro do cafezal. Podas, espaçamento adequado e manejo correto da sombra podem contribuir para melhorar a circulação de ar e reduzir períodos prolongados de molhamento foliar.

4. Controle químico

Em situações de risco elevado ou quando o monitoramento indica aumento da doença, os fungicidas podem ser utilizados como parte do programa de manejo.

O ideal é trabalhar com programas preventivos e/ou nos estágios iniciais da doença, respeitando o registro dos produtos para a cultura e as recomendações de bula.

Entre os grupos utilizados no manejo de doenças do cafeeiro estão:

  • Triazóis;
  • Estrobilurinas;
  • Carboxamidas;
  • Fungicidas multissítios;
  • Fungicidas à base de cobre.

A escolha deve considerar o histórico da propriedade, pressão da doença, condições climáticas, estádio da cultura e mecanismo de ação do produto.

Cuidado com a resistência

O uso repetitivo de fungicidas com o mesmo mecanismo de ação aumenta o risco de seleção de populações menos sensíveis do patógeno.

Por isso, um programa técnico deve buscar a rotação e/ou associação de diferentes mecanismos de ação, sempre respeitando as recomendações oficiais e evitando aplicações desnecessárias.

A utilização de fungicidas multissítios, quando tecnicamente indicada, pode ser uma ferramenta importante dentro de programas de manejo de resistência.

Cercosporiose x ferrugem

É importante diferenciar a cercosporiose da ferrugem do cafeeiro.

A ferrugem, causada por Hemileia vastatrix, normalmente apresenta a característica presença de esporulação alaranjada na face inferior das folhas.

Já a cercosporiose apresenta principalmente manchas necróticas circulares, frequentemente com centro mais claro e halo amarelado.

Essa diferenciação é fundamental para que o produtor escolha corretamente as estratégias de manejo.

O manejo começa antes do aparecimento dos sintomas

Um dos principais erros no controle da cercosporiose é esperar que a doença esteja instalada para iniciar o manejo.

O produtor deve trabalhar de forma preventiva, considerando:

Análise de solo → correção da fertilidade → equilíbrio nutricional → monitoramento → acompanhamento climático → decisão de controle → rotação de mecanismos de ação.

Essa estratégia reduz a pressão da doença e permite utilizar os fungicidas de maneira mais racional.


Conclusão

A cercosporiose continua sendo um importante desafio para a cafeicultura, principalmente em lavouras submetidas a condições de estresse ou com desequilíbrios nutricionais.

O melhor resultado é obtido por meio de um manejo integrado, combinando nutrição equilibrada, monitoramento, manejo adequado da lavoura e uso criterioso de fungicidas.

Mais do que simplesmente “aplicar um produto”, o objetivo deve ser antecipar o risco, identificar a doença rapidamente e construir um programa de manejo eficiente e sustentável ao longo da safra.