No mercado de cana-de-açúcar, o que define o preço recebido pelo produtor não é apenas o volume de toneladas entregues, mas o ATR — Açúcar Total Recuperável. O ATR mede a quantidade de açúcar que pode ser extraída de cada tonelada de cana. Quanto maior o ATR, mais o produtor recebe por tonelada.
Pequenas otimizações de manejo podem aumentar o ATR de 3 a 8 kg/t — o que, multiplicado por centenas ou milhares de toneladas, representa diferença financeira significativa sem necessidade de ampliar a área plantada.
O que determina o ATR da cana
O ATR é influenciado por:
- Variedade: algumas variedades acumulam mais sacarose naturalmente
- Maturação fisiológica: cana colhida antes da maturação tem ATR menor
- Adubação potássica: o potássio é o nutriente mais relacionado ao acúmulo de sacarose
- Manejo do nitrogênio: excesso de N nas fases finais prejudica a maturação
- Tempo entre corte e moagem: cana que demora para ser processada perde ATR por inversão da sacarose
- Maturadores químicos: produtos que antecipam e uniformizam a maturação
Manejo nutricional para maximizar ATR
Potássio — o nutriente do ATR
O potássio é diretamente responsável pelo transporte e acúmulo de sacarose nos colmos. Canas deficientes em K têm ATR consistentemente menor.
- Dose recomendada: 120 a 180 kg de K₂O/ha por ciclo
- Aplicar no máximo até 150 dias antes da colheita — após esse período, o K não consegue mais influenciar significativamente o ATR da safra atual
- Fontes: KCl (mais barato) ou sulfato de potássio (em solos sensíveis a cloro)
Nitrogênio — cuidado na fase final
O nitrogênio estimula o crescimento vegetativo e, em excesso na fase de maturação, impede o acúmulo de sacarose. A recomendação técnica é:
- Suspender a adubação nitrogenada a partir de 120 dias antes da colheita
- Não aplicar vinhaça (que tem efeito nitrogenado) após esse período
- Em cana-planta, a adubação nitrogenada é baixa (40 a 60 kg N/ha). Em soqueiras, 80 a 120 kg N/ha parcelados
Uso de maturadores químicos
Maturadores são produtos que induzem o acúmulo de sacarose nos colmos e/ou inibem o crescimento vegetativo, promovendo a maturação antecipada ou em períodos desfavoráveis.
Os principais maturadores usados no Brasil:
- Etefom: induz o amadurecimento via liberação de etileno. Aplicar 45 a 60 dias antes da colheita. Dose: 480 a 960 g/ha de ingrediente ativo.
- Sulfometurom-metílico: inibe a síntese de aminoácidos, desviando carbono para a sacarose. Aplicar 45 a 60 dias antes da colheita. Altamente eficiente, mas com restrições de uso em solos arenosos.
- Glifosato em dose sub-letal: em doses muito baixas (180 a 360 g de e.a./ha), pode atuar como maturador. Requer experiência e condições específicas.
O ganho de ATR com maturadores pode variar de 2 a 6 kg/t, dependendo das condições climáticas e do estágio da cultura.
Manejo da colheita para preservar ATR
O ATR começa a cair imediatamente após o corte. A inversão da sacarose em glucose e frutose ocorre rapidamente em temperaturas altas.
- O ideal é moer a cana em até 24 horas após o corte em épocas quentes
- Cana queimada deve ser processada em até 8 horas (o calor acelera a inversão)
- Cana crua tem maior tempo de espera tolerável — até 48 horas sem perda significativa
- Negociar com a usina o tempo máximo de fila e exigir compensação por espera excessiva
Cada ponto a mais de ATR é dinheiro sem custo adicional de terra ou insumo. Maneje a nutrição, use maturadores nas situações certas e entregue a cana rápido após o corte.