Na Expointer 2026 — a maior feira agropecuária da América Latina, realizada em Esteio (RS) —, foi lançada uma certificação que pode mudar a lógica financeira da pecuária brasileira: um sistema que transforma a redução de emissões de metano bovino em vantagem financeira direta para o pecuarista. A notícia foi divulgada pelo portal Notícias Agrícolas em setembro de 2026 e representa o ponto de chegada de uma tendência que acelerou dramaticamente nos últimos dois anos.
O metano (CH₄) é o principal gás de efeito estufa emitido pela bovinocultura, produzido no processo de fermentação entérica (digestão) dos ruminantes. Um bovino adulto emite entre 60 e 120 kg de metano por ano — o equivalente em impacto climático a mais de 2 toneladas de CO₂ equivalente. Com o Brasil tendo o maior rebanho bovino comercial do mundo — mais de 230 milhões de cabeças — a redução das emissões da pecuária tem impacto global relevante.
O que é a certificação de carbono na pecuária e como funciona
A certificação de carbono na pecuária é um sistema que mede a quantidade de emissões de gases de efeito estufa que uma propriedade rural emite — e quanto consegue reduzir essas emissões em relação a uma linha de base. A diferença entre o que seria emitido sem o manejo sustentável e o que é efetivamente emitido com as práticas adotadas gera créditos de carbono, que podem ser vendidos a empresas que precisam compensar suas próprias emissões.
Na prática, para o pecuarista, o processo funciona assim:
- Uma empresa certificadora avalia a propriedade e estabelece a linha de base de emissões (quanto o rebanho emitiria sem nenhuma prática de mitigação)
- O pecuarista adota práticas de redução: suplementos alimentares que reduzem a fermentação entérica, pastagem de qualidade que aumenta a eficiência alimentar, ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) que sequestra carbono, ou melhoria genética que reduz o ciclo produtivo
- Periodicamente, as emissões são auditadas e os créditos gerados são registrados em plataformas reconhecidas internacionalmente (Verra, Gold Standard, Bonsucro)
- Os créditos são vendidos no mercado de carbono — que em 2026 negocia a preços de US$ 15 a US$ 80 por tonelada de CO₂ equivalente, dependendo da certificação e da qualidade do projeto
Quanto rende um projeto de carbono na pecuária
As estimativas variam conforme o sistema produtivo e a tecnologia adotada, mas estudos da Embrapa Pecuária Sudeste apontam que sistemas de ILPF bem manejados podem reduzir as emissões de metano em 50 a 70% por quilo de carne produzido em comparação com pecuária extensiva convencional. Além da redução na fermentação entérica, o componente florestal do ILPF sequestra carbono atmosférico, gerando créditos adicionais.
Para uma propriedade com 500 UA (unidades animais) em sistema de ILPF, a estimativa de créditos gerados varia de 500 a 1.500 toneladas de CO₂ equivalente por ano. A preços de mercado de US$ 20 por tonelada (valor conservador), isso representa US$ 10.000 a US$ 30.000 por ano de renda adicional sem aumento de área e sem redução da produção de carne.
Baixo carbono como porta de entrada na UE
O incentivo financeiro do mercado de carbono se soma a uma exigência cada vez mais concreta dos mercados consumidores — especialmente a União Europeia. O Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR), em vigor desde 2024, exige que qualquer produto de origem agropecuária vendido no bloco europeu seja rastreável até a propriedade de origem e demonstravelmente livre de associação com desmatamento ocorrido após janeiro de 2020.
Para a carne bovina brasileira — que tem na Europa um dos mercados que paga os maiores preços —, o EUDR representa tanto uma ameaça quanto uma oportunidade. Produtores que conseguirem demonstrar rastreabilidade total e práticas sustentáveis (incluindo certificação de carbono) terão acesso preferencial a um mercado disposto a pagar preços premium. Os que não conseguirem podem simplesmente perder o acesso ao mercado europeu.
Suplementação para reduzir metano — a tecnologia que o Brasil já tem
A redução da emissão de metano entérico não exige tecnologias futuristas ou custosas. A pesquisa brasileira já desenvolveu soluções acessíveis:
Tanino condensado (extratos vegetais)
Estudos da Embrapa demonstraram que a suplementação com taninos condensados de origem vegetal (extratos de acácia, por exemplo) pode reduzir a emissão de metano entérico em 15 a 25%. Os taninos modificam a microbiota ruminal, reduzindo as populações de archaea metanogênicas — as bactérias responsáveis pela produção de metano no rúmen.
3-Nitroxipropanol (3-NOP)
Aprovado pela FDA americana e em processo de aprovação no Brasil, o 3-NOP é um aditivo alimentar que inibe diretamente a enzima responsável pela produção de metano no rúmen. Estudos publicados mostram redução de 20 a 30% nas emissões com uso regular do produto.
Pastagem de qualidade
Este é o método mais acessível e com melhor custo-benefício. Quanto mais digestível e nutritiva a forragem, mais eficiente é o processo de fermentação ruminal e menor a quantidade de metano produzida por quilo de carne. Uma pastagem bem manejada, com braquiária renovada e adubação adequada, pode reduzir as emissões em 20 a 40% por kg de carne produzido em comparação com pastagem degradada.
ILPF — o sistema que mais carbono sequestra
A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) é o sistema que combina pastagem, lavoura e árvores na mesma área. Além de aumentar a produtividade, o componente florestal sequestra carbono atmosférico de forma permanente — criando créditos de carbono de maior valor de mercado que os créditos de simples redução de emissões.
A Embrapa estima que o Brasil tem potencial para sequestrar mais de 1 bilhão de toneladas de CO₂ ao longo de 20 anos somente com a recuperação de pastagens degradadas e a implantação de ILPF nas áreas de pecuária extensiva. Isso representa um mercado de créditos de carbono da ordem de US$ 15 a US$ 50 bilhões — se os sistemas de certificação e rastreabilidade conseguirem monetizar esse potencial.
O pecuarista de e da Bahia no contexto do carbono
Para o pecuarista da Bahia — especialmente nas regiões de , Irecê, Guanambi e do Oeste baiano —, a pecuária de carbono representa uma oportunidade real de diversificação de renda. O semiárido baiano tem características que favorecem alguns dos sistemas de baixo carbono: a vegetação de Caatinga nativa nas áreas de reserva legal sequestra carbono; a caprinocultura e ovinocultura emitem menos metano por kg de proteína produzida que os bovinos; e o potencial para sistemas silvopastoris com espécies nativas da Caatinga é enorme e ainda pouco explorado.
O primeiro passo para o pecuarista baiano interessado em acessar o mercado de carbono é contatar uma empresa certificadora para uma avaliação inicial da propriedade — avaliação que geralmente é gratuita e serve para dimensionar o potencial de créditos geráveis.
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Sou Joelto Vieira, Engenheiro Agrônomo. Ofereço consultoria técnica, análise de solo, recomendação de adubação, projetos Pronaf, laudos e receituário agronômico para produtores rurais da Bahia e região.
Fontes e referências
- Notícias Agrícolas — Certificação lançada na Expointer transforma redução de metano em vantagem financeira para o pecuarista. Set/2026.
- Embrapa Pecuária Sudeste — ILPF: sistemas integrados para uma pecuária de baixo carbono. 2025.
- MAPA — Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR) e impactos para a pecuária brasileira. 2025.
- Embrapa Gado de Corte — Suplementação para redução de emissões entéricas na bovinocultura. 2024.
- Canal Rural — Pecuária nacional reforça competitividade com avanços em gestão, nutrição e genética. Set/2026.