O ácaro é uma das pragas que mais frustra o produtor de morango — não porque seja difícil de controlar quando identificado, mas porque muitas vezes só é percebido quando o dano já é grave. O problema é que o ácaro é minúsculo (menos de 0,5 mm), se reproduz muito rapidamente em condições quentes e secas, e os primeiros sintomas nas folhas são sutis o suficiente para passar despercebidos em uma vistoria rápida.
Este artigo vai mostrar como identificar a infestação de ácaros no morango nos estágios iniciais, antes que a produção seja comprometida.
As principais espécies de ácaros no morango no Brasil
Ácaro-rajado (Tetranychus urticae)
É a espécie mais comum e mais temida na cultura do morango. Adultos são visíveis a olho nu (0,3 a 0,5 mm), com coloração que varia de amarelo-esverdeado a laranja, geralmente com manchas escuras nas laterais do corpo — daí o nome "rajado".
Onde fica: prefere a face inferior das folhas, onde forma colônias densas. Em populações altas, forma teia fina e branca que cobre o limbo foliar.
Dano: perfura as células da folha e se alimenta do conteúdo celular. Isso causa um pontilhado prateado ou amarelado na face superior das folhas — como se a folha tivesse sido riscada com uma agulha em muitos pontos. Em ataques severos, as folhas ficam bronzeadas, ressecadas e caem.
Ácaro-do-bronzeamento (Phytonemus pallidus)
Muito menor que o rajado — praticamente invisível a olho nu, com menos de 0,2 mm. Por isso é ainda mais difícil de perceber precocemente.
Onde fica: concentra-se nos tecidos jovens — meristemas, brotos apicais e folhas novas em desenvolvimento.
Dano: causa deformação e encarquilhamento das folhas novas, que ficam menores, mais duras e de coloração bronzeada a avermelhada. Em ataques severos, os pedúnculos dos frutos ficam curtos e os frutos deformes — o que compromete tanto o aspecto comercial quanto a produtividade.
Como identificar — o protocolo de monitoramento
Monitoramento visual semanal
Faça inspeções semanais, especialmente nos períodos quentes e secos (que favorecem a reprodução dos ácaros). O método:
- Colete aleatoriamente 20 folhas do terço mediano das plantas (folhas mais velhas para o ácaro-rajado, folhas novas para o do bronzeamento)
- Examine a face inferior com lupa de 10 a 20 aumentos — visível o ácaro-rajado adulto; o do bronzeamento exige lupa de maior aumento
- Observe também os brotos apicais para sintomas de deformação
- Registre a porcentagem de folhas com presença de ácaros ativos
Sinais que passam despercebidos
- Pontilhado prateado/amarelado na face superior: é o primeiro sinal visível do ácaro-rajado — muitos produtores confundem com deficiência nutricional ou vírus
- Folhas novas menores e com bordas enroladas: sinal do ácaro-do-bronzeamento nos estágios iniciais
- Teia fina nos folíolos: indica população alta de ácaro-rajado — nesse ponto, o dano já é significativo
- Plantas com crescimento reduzido sem causa aparente: o ácaro-do-bronzeamento em população média já reduz o vigor sem sintomas óbvios
Condições que favorecem a explosão populacional
Os ácaros se reproduzem muito mais rapidamente em condições específicas:
- Temperatura alta (acima de 25°C) + baixa umidade relativa: condição ideal para o ácaro-rajado. Um ciclo de geração pode ser completado em menos de 7 dias
- Excesso de nitrogênio: plantas com adubação nitrogenada excessiva têm tecido mais suculento e com maior teor de aminoácidos — mais "gostoso" para os ácaros. O monitoramento da adubação N é parte do MIP (Manejo Integrado de Pragas)
- Eliminação dos inimigos naturais por agrotóxicos de largo espectro: ácaros predadores naturais (como Phytoseiidae) controlam populações de ácaros fitófagos. Quando eles são eliminados por inseticidas aplicados sem seletividade, a população de ácaros explode sem controle biológico natural
Controle integrado de ácaros no morango
Controle biológico
Ácaros predadores da família Phytoseiidae — como Neoseiulus californicus — são inimigos naturais dos ácaros fitófagos e estão disponíveis comercialmente no Brasil para liberação em lavouras. São especialmente eficientes em populações iniciais e em cultivos protegidos (túnel). O uso de produtos seletivos que preservam esses predadores é fundamental para que o controle biológico funcione.
Controle químico — acaricidas registrados
Quando o monitoramento indica população acima do nível de ação, o controle químico com acaricida registrado para morango pode ser necessário. Pontos importantes:
- Sempre consulte um agrônomo e a bula do produto antes de aplicar
- Aplique cobrindo bem a face inferior das folhas — onde os ácaros vivem
- Rotacione mecanismos de ação para evitar resistência
- Respeite o período de carência, especialmente com frutos em desenvolvimento
Erros comuns
- Aplicar inseticida de largo espectro sem necessidade — elimina os predadores naturais e cria condições para explosão populacional de ácaros
- Não cobrir a face inferior das folhas na aplicação — o ácaro vive embaixo, e aplicar só por cima tem eficiência muito baixa
- Usar o mesmo acaricida várias vezes seguidas — o ácaro tem alta capacidade de desenvolver resistência
- Vistoriar apenas quando já há sintomas visíveis — o monitoramento preventivo semanal é mais eficiente
Perguntas frequentes
Como distinguir dano de ácaro de deficiência nutricional no morango?
O pontilhado prateado do ácaro-rajado na face superior das folhas é bastante característico. Use uma lupa e examine a face inferior — se houver ácaros, você os verá movendo-se. Deficiências nutricionais geralmente causam descolorações mais uniformes (amarelamento ou manchas) sem o pontilhado característico e sem os ácaros visíveis.
O ácaro do morango passa para outras plantas do jardim?
O ácaro-rajado (Tetranychus urticae) é altamente polífago — ataca mais de 200 espécies de plantas. Pode sim se dispersar para outras plantas próximas, especialmente em condições quentes e secas. Em cultivos protegidos, o controle de entrada de plantas hospedeiras é parte do manejo preventivo.
Qual a diferença entre ácaro e pulgão no morango?
São pragas completamente diferentes. O pulgão é visível a olho nu, mole, de coloração verde, amarela ou escura, e fica em colônias nos brotos e na face inferior das folhas, causando encarquilhamento e excretando melada. O ácaro é muito menor, causa pontilhado nas folhas e forma teia em populações altas. O controle é diferente para cada um.
Conclusão
O ácaro no morango é uma praga que exige atenção constante — especialmente nos períodos quentes. A vistoria semanal com lupa é o investimento de tempo mais barato que existe para evitar perdas de produção que podem comprometer metade ou mais da safra. Quanto antes identificado, mais simples e menos custoso é o controle.
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Joelto Vieira é Engenheiro Agrônomo. Atende produtores rurais com análise de solo, recomendação de adubação, diagnóstico de pragas e doenças, projetos Pronaf e receituário agronômico.
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