Entre maio e setembro, nas regiões de clima sazonal do Brasil, a pastagem sofre uma queda dramática em quantidade e qualidade. A proteína bruta do pasto pode cair de 12–14% na época das chuvas para apenas 3–5% na seca — abaixo do mínimo de 7% necessário para o funcionamento adequado do rúmen. Sem suplementação, o animal passa da fase de ganho de peso para a fase de perda de peso, o que representa prejuízo direto ao pecuarista.
O que acontece com o animal no período seco
O bovino é um ruminante que depende dos microrganismos do rúmen para digerir a fibra do pasto. Esses microrganismos precisam de nitrogênio (proteína) para se multiplicar e trabalhar. Quando o pasto tem menos de 7% de proteína bruta, a população microbiana cai, a digestibilidade do pasto diminui e o animal come menos — mesmo que o pasto esteja disponível.
O ciclo vicioso da seca: pasto pobre → menos bactérias no rúmen → menor digestão → animal come menos → perde peso → piora a condição corporal → demora mais para emprenhar ou ganhar peso.
Tipos de suplemento e quando usar cada um
Sal mineral (mineralização)
Fornecido o ano todo, à vontade. Fornece macro e micronutrientes essenciais. Não substitui a proteína na seca — é complemento, não suplemento proteico.
Consumo esperado: 30 a 80g/animal/dia dependendo da formulação.
Suplemento proteico-energético (SPE)
A principal categoria para o período seco. Contém nitrogênio não proteico (NNP como ureia) e/ou proteína verdadeira, além de energia (amido, gordura). Estimula os microrganismos do rúmen, aumenta a digestibilidade do pasto e mantém o ganho de peso.
Consumo esperado: 80 a 200g/animal/dia — esse baixo consumo é uma vantagem do SPE sobre os suplementos volumosos.
Suplemento proteico-energético-mineral (SPEM)
Combina proteína, energia e minerais em um único produto. Pratico e eficiente. A maioria dos suplementos comerciais de seca é desta categoria.
Suplemento energético-proteico de alto consumo (mistura múltipla)
Contém grãos (milho, sorgo) e proteína. Consumo de 500g a 2kg/animal/dia. Usado para terminação intensiva a pasto ou quando a pastagem está muito escassa.
Como formular o suplemento proteico para a seca
A formulação básica para suplemento proteico-mineral-energético (SPME) para bovinos em recria (250–350 kg):
| Ingrediente | Quantidade (kg/100kg) | Função |
|---|---|---|
| Sal comum | 40 kg | Regulador de consumo + sódio |
| Ureia pecuária (45% N) | 10 kg | Nitrogênio para rúmen |
| Farelo de soja | 20 kg | Proteína verdadeira |
| Milho moído | 20 kg | Energia (amido) |
| Suplemento mineral | 10 kg | Macro e micronutrientes |
Atenção com a ureia: nunca formule acima de 1% de ureia na matéria seca total da dieta. O consumo mínimo de 80g/animal/dia é essencial para evitar toxidez. Animais sem costume com ureia devem ser adaptados gradualmente em 15 a 20 dias.
Retorno econômico da suplementação
Pesquisas da Embrapa Gado de Corte demonstraram que bovinos suplementados no período seco ganham de 200 a 400g/animal/dia, enquanto animais não suplementados perdem de 100 a 300g/dia. A diferença de desempenho entre suplementado e não suplementado ao longo de 5 meses de seca pode ser de 50 a 80 kg de peso vivo por animal.
Com boi gordo a R$ 340/arroba e fator de conversão de 30kg PV = 1 arroba: ganho de 60 kg = 2 arrobas = R$ 680 por animal. Custo do suplemento para 5 meses (100g/dia × 150 dias × R$ 3,00/kg): aproximadamente R$ 45 por animal.
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Sou Joelto Vieira, Engenheiro Agrônomo. Ofereço consultoria técnica para pecuaristas: manejo de pastagem, análise de solo, projetos para Pronaf, laudos e recuperação de pastagens degradadas.
Referências
- EMBRAPA GADO DE CORTE. Suplementação de bovinos de corte em pastejo. Campo Grande: Embrapa, 2022.
- PAULINO, M.F. et al. Suplementação de bovinos sob pastejo. UFV, Viçosa, 2008.
