O feijão comum (Phaseolus vulgaris L.) é um dos alimentos mais importantes da dieta do brasileiro — fonte de proteínas, fibras, ferro, zinco, magnésio e ácido fólico. O Brasil está entre os maiores produtores mundiais, com destaque para os estados de Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Bahia. A produtividade média nacional, porém, ainda está muito abaixo do potencial das cultivares disponíveis — e a diferença está quase sempre no manejo.
Este guia reúne as principais recomendações técnicas da Embrapa Arroz e Feijão para o cultivo do feijoeiro comum nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, complementadas por publicações do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e da Embrapa Cerrados.
Calagem e preparo do solo
O feijoeiro é sensível à acidez do solo. A faixa de pH ideal fica entre 5,8 e 6,5, segundo a Embrapa. Em solos com pH abaixo de 5,5 ou saturação de alumínio (m%) acima de 20%, a calagem é obrigatória antes do plantio.
A calagem eleva o pH, reduz a toxidez de alumínio e manganês e aumenta a disponibilidade de cálcio, magnésio e fósforo. Deve ser realizada pelo menos 30 a 60 dias antes do plantio, incorporada ao solo até 20 cm de profundidade. O calcário dolomítico (que fornece Ca e Mg) é preferível ao calcítico em solos com relação Ca:Mg acima de 8:1.
Adubação — o que a Embrapa recomenda
A Embrapa Arroz e Feijão ressalta que não existe uma receita única para adubação do feijoeiro — a dose correta depende do histórico da área, da produtividade esperada e, fundamentalmente, da análise de solo. Como referência geral para as regiões Norte e Nordeste, os pesquisadores da Embrapa apresentam as seguintes orientações:
Nitrogênio (N)
A absorção de nitrogênio pelo feijoeiro é intensa: para produzir 1 t/ha de grãos, a cultura extrai cerca de 42 kg de N, dos quais aproximadamente 65% são exportados nos grãos. Nas recomendações oficiais da Embrapa, a dose de N indicada para o feijoeiro varia de 40 a 100 kg/ha, dependendo do potencial produtivo e do histórico do solo.
A inoculação das sementes com Rhizobium tropici — as bactérias que fixam nitrogênio atmosférico — é uma alternativa eficiente e documentada pela pesquisa. Segundo dados citados no blog da Aegro, pesquisas da Universidade de São Paulo mostram que a inoculação adequada pode reduzir em até 75% o uso de adubos nitrogenados por hectare, mantendo a produtividade. A Embrapa recomenda que a inoculação seja feita separadamente da aplicação de fungicidas nas sementes.
Fósforo (P)
O feijoeiro responde muito bem ao fósforo — a Embrapa aponta que pesquisas mostram incrementos de produtividade com aplicação de até 120 kg/ha de P₂O₅, mesmo em solos com teores considerados adequados para outras culturas. O fósforo deve ser aplicado no sulco de plantio, onde o contato com as raízes jovens é maior.
Potássio (K)
O potássio influencia a resistência a doenças, o enchimento das vagens e a qualidade dos grãos. As doses variam conforme o teor de K no solo, determinado pela análise. Em solos com teor médio, doses de 40 a 80 kg/ha de K₂O são comuns nas recomendações regionais.
| Nutriente | Dose indicativa (kg/ha) | Época de aplicação | Fonte |
|---|---|---|---|
| N | 40 a 100 | 1/3 no plantio + 2/3 em cobertura (V4) | Embrapa Arroz e Feijão |
| P₂O₅ | 60 a 120 | Todo no sulco de plantio | Embrapa / IAC |
| K₂O | 40 a 80 | Todo no plantio ou parcelado | Embrapa / IAC |
⚠️ Valores de referência. Ajuste obrigatório conforme análise de solo. Fonte: Embrapa Arroz e Feijão — Recomendações técnicas para o feijoeiro-comum nas regiões Norte e Nordeste. Circular Técnica 89.
Espaçamento e população de plantas
O espaçamento mais comum e recomendado para o feijoeiro é de 0,45 a 0,50 m entre linhas, com densidade de 10 a 15 sementes por metro linear — resultando em 200.000 a 300.000 plantas por hectare, dependendo da cultivar. Espaçamentos maiores favorecem a mecanização da colheita.
Principais pragas — Manejo Integrado
A Embrapa desenvolveu o sistema de Manejo Integrado de Pragas (MIP) para o feijoeiro, documentado em publicação específica da pesquisadora Eliane D. Quintela (Embrapa Arroz e Feijão). O MIP baseia-se em monitoramento sistemático das lavouras e intervenção apenas quando a população da praga atinge o nível de ação — o que reduz custos e evita a resistência das pragas a inseticidas.
| Praga | Fase crítica | Nível de ação (referência) |
|---|---|---|
| Mosca-branca (Bemisia tabaci) | Vegetativo | 1 adulto/folha (transmissora de vírus) |
| Cigarrinha-verde (Empoasca spp.) | Vegetativo e reprodutivo | 1,5 ninfas/folha |
| Lagartas (Spodoptera, Chrysodeixis) | Vegetativo | 20% de desfolha |
| Caruncho (Zabrotes subfasciatus) | Armazenamento | Presença — controle preventivo no armazenamento |
Fonte: Embrapa Arroz e Feijão — Manejo Integrado de Pragas do Feijoeiro. Eliane D. Quintela.
Principais doenças
O feijoeiro é suscetível a diversas doenças fúngicas e bacterianas. As mais importantes economicamente no Brasil são:
- Antracnose (Colletotrichum lindemuthianum): causa lesões escuras nas vagens e sementes. Controle: sementes certificadas e fungicidas registrados
- Mancha-angular (Phaeoisariopsis griseola): manchas angulosas nas folhas. Controle: fungicidas e resistência varietal
- Ferrugem (Uromyces appendiculatus): pústulas alaranjadas nas folhas. Controle: fungicidas preventivos
- Crestamento-bacteriano (Xanthomonas axonopodis): manchas aquosas nas folhas. Controle: sementes tratadas e rotação de culturas
- Mosaico-dourado (vírus/mosca-branca): amarelamento e mosaico foliar. Controle do vetor (mosca-branca) e cultivares tolerantes
Colheita e ponto de maturação
A colheita do feijão ocorre quando 90% das vagens estão secas e amareladas — geralmente entre 85 e 100 dias após a semeadura, dependendo da cultivar e das condições climáticas. A umidade dos grãos no momento da colheita deve estar entre 16% e 18% para evitar danos mecânicos na trilha e perdas de qualidade.
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Joelto Vieira — Engenheiro Agrônomo. Consultoria, análise de solo, adubação, receituário e projetos Pronaf.
💬 (77) 99823-3487Referências
- Embrapa Arroz e Feijão — Recomendações técnicas para o cultivo do feijoeiro-comum nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Circular Técnica 89. infoteca.cnptia.embrapa.br.
- Embrapa — Adubação do feijoeiro. agencia.cnptia.embrapa.br/feijao/producao/adubacao.
- Embrapa Arroz e Feijão — Manejo Integrado de Pragas do Feijoeiro. Eliane D. Quintela.
- Aegro — Produtividade do Feijão: 6 dicas essenciais (com base em pesquisas Embrapa e USP). aegro.com.br. 2025.